9.10.2009

Café Sem Açúcar

    A luz passava fraca pelas folhas e galhos tortos das árvores de tantos anos, tristes. Nenhuma estrela no céu. A folhagem seca sucumbia à brisa fresca que aspirava transformar-se em ventania, mas engasgava sua tentativa no meio do caminho. A água corria leve pelos pés, e nela pôde ver sua imagem refletida, embaçada, fraca como sua alma.
    Ele olhou para o lado, voltando a observar o corpo estirado no chão, as mãos voltadas para cima, o rosto caído ainda marcando desespero e tranquilidade. A boca entreaberta, olhos infinitos. Um desejo entalado na garganta de mudar os passos dados e tentar novamente uma história alegre. A alça do vestido caída no ombro, deixando a pele de rosas à mostra. O vestido levantado um pouco acima dos joelhos, os pés descalços. Ele percebeu, mais uma vez, como ela estava linda.
    Lembranças daquele lugar. Quantos dias e quantas noites de companhia! Ele, ela, o lugar, o vento, os sons, mais nada. Confidências, conversas. Até mesmo em silêncio trocavam palavras. O abraço carinhoso, os beijos, a respiração, as pulsações, os tremores súbitos que percorriam os corpos. Os toques e as sensações indefinidas que tentavam ser traduzidas pelos gemidos sufocados, que ecoavam entre as árvores e eram recolhidos pelas flores e pela água. Era tão doce, tão puro, inocentemente envolvente. Os olhares trocados na despedida. O leve toque dos lábios e a risada infantil. Ela ficava linda daquele jeito.
    O vento ficava mais forte, e ele desejava que a ventania levasse aquele agora e lhe trouxesse outro, mas sabia que era impossível. Maldito "impossível" que foi usado por ela. Talvez ele pudesse, naquele momento, criar o que sempre desejou: o eterno. Perto dela, seus momentos sempre foram para sempre, e aquela era sua chance de engolir a eternidade.
    Em alguns momentos, considerava a idéia de estar sendo egoísta por não deixá-la escolher qual eterno queria para si, mas ela também não o deixara escolher. Ele só havia devolvido a falta de coração. Ela havia escolhido outro caminho, mas na fronteira estava ele, a sua espera.
    Aquela noite havia sido mais amarga que as outras. Os abraços feriam, os beijos arrancavam pedaços e a respiração era bloqueada. Os sons, desta vez, espantavam os ecos e seguiam crus até o céu. Mas ele gostara daquilo. Seu sentimento havia sido atirado de uma vez, para sempre.
    Percebeu que a mancha no vestido dela aumentava e a pele rosada tornava-se cada vez mais alva. Os lábios secos, os olhos sem vida. Era a hora de juntar-se a ela, seu sonho, o eterno. O vermelho vindo dela dissolvia-se na transparência da correnteza que aumentava. Nenhum ruído além dos galhos rangendo.
    De repente, a luz se apagou e o céu chorou lágrimas de gotas densas. Ele acompanhou o céu. A lâmina molhada, a penetração na pele. O vermelho lavado. Enfim, o eterno.
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4 comentários:

Ludmilla disse...

Ou, você me inspira demais, adoro isso que você escreve, como que pode, eu imagino tudo, vejo tudo que escreve, como se fosse um filme bem aqui a minha frente. Beijo.

CARVALHO,laís disse...

lol
isso conta a historia de um assassinato, estupro.. ?!
Me desculpe se eu interpetrei errado, mas foi isso que eu entendi na parte " Aquela noite havia sido mais amarga que as outras. Os abraços feriam, os beijos arrancavam pedaços e a respiração era bloqueada. Os sons, desta vez, espantavam os ecos e seguiam crus até o céu. Mas ele gostara daquilo."

E ao longo do texto, é essa ideia que me passa. Não sei se é meu instinto assassina que me levou a pensar isso.. ;X
Mas eu amei, muito intensa essa historia, é de acelerar o coração *--*

Andarilho Descalço disse...

Triste.

Maris Morgenstern disse...

ahhh, cada vez q dou um pulo aqui me dá uma vontade louca de café...
como eu gosto do marrom do seu layout
um beijo